Amar em palavras
Escrever está para o amor, muito mais do que para a violência. Violência esta de jogar na cara dos leitores os pensamentos convertidos em arte, que é mais amorosa quando se deixa insuspeitadamente crua nas insinuações e devaneios. E, das extensões do poder a quem domina e instrumentaliza as palavras, a mais cruel situa-se no direito de também definir o que é, e o que não é violento.
Já não guerreamos com palavras, mesmo porque a história não se constrói com palavras, não raro, seja composta por sangue. As intenções com as palavras são geralmente pacíficas, pois a práxis de quem ‘se vira com elas’ é substrato da reflexão, e ninguém acrescido de matéria refletida se conduz à violência, seja no plano das idéias ou nas intenções, exceção feita às bestialidades.
Embora tenha que me conduzir na labiríntica conversão dos pensamentos aos materiais audíveis, visíveis e verbais, devo sustentar um equilíbrio que só me põe de pé pela minha própria instabilidade: Falar o que pensa, quando seria a forma mais justa, não é tarefa das mais fáceis; mostrar o que, na duvidosa justiça, deveria ser mostrado, sequer supre as expectativas, ela, sempre ela, as malditas expectativas, a promover os desvios, os atalhos, a desfocar as atenções; enfim, trocar em miúdos da língua, o que nos pensamentos se processa no atacado, sintetiza as possibilidades das linguagens e não economiza as horas de trabalho. Outro maldito esse trabalho, já que tudo que penso, o faço na atividade do ócio. Contradição primeira de afirmar que não existe a verdade, ao se afirmar que é verdade não existir a verdade. Não dá pra trabalhar nessa mentira. Daí me desconcentro, já não consigo me por em conexão com as idéias, nem com as palavras e, o leitor no risco de ficar entre o querer mais ou, no silêncio da leitura ficar aturdido e livre, ajuiza a insanidade de se escrever por necessidade e lê menos, quase como o ar, não se prescinde por muito tempo. Tal qual o amor e o trabalho, seja por violência, ou não.
Escrito por JURI às 18h37
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