"...Escrevo porque o que eu faria dessa onda de amor que às vezes existe em mim? Escrevo por amor? Escrevo...o que poderia fazer se não escrevesse? Escrevo porque, se dói muito escrever, não escrever dói também e mais. Escrevo porque amo e odeio o mundo? Escrevo para saber porque nasci. E às vezes escrevo como quem dá de comer a mim e aos outros.
As recompensas de escrever são as de escrever apenas. Escreve-se porque se sente sozinho no mundo, o que não é uma verdade de fato, mas uma verdade íntima. Preciso criar alguma coisa que viva com a fragilidade e a mobilidade de um pintinho recém-nascido. Não posso morrer sem antes ter descoberto a alegria que até hoje raras vezes encontrei. E, no ato de escrever, renascer das cinzas.
(...)
Escrever é um modo de não mentir o sentimento (a transfiguração involuntária da imaginação é apenas um modo de chegar); de lado, escrevo pela incapacidade de entender se não usar o processo de escrever. Escrever é compreender melhor. Se às vezes tomo sem querer um ar hermético, é que não só o principal é não mentir o sentimento como porque tenho incapacidade de transpô-lo de um modo claro sem que mentisse – e mentir o pensamento seria tirar a única alegria de escrever.
Nem tudo o que escrevo resulta numa realidade, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.
Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia." (Clarice Lispector).